A ética aplicada às organizações
Na medida em que tem como objectivo a edificação de uma sociedade mais justa, a ética não se encerra no âmbito individual. Desta forma, a ética social tem como enfoque a reflexão crítica sobre as estruturas sociais existentes, sobre a sua reforma e sobre a instauração de novas instituições. Sendo a empresa uma das instituições mais importantes da nossa era, a sua mutabilidade – própria de todas as organizações – é uma constante. Há, contudo, que integrar três perspectivas imprescindíveis quando falamos da empresa, enquanto organização:
· As organizações são produtos humanos
· As organizações são realidades objectivas
· Os homens são produto das organizações
Embora com uma história tão antiga quanto a sua génese, o conceito de “ética nos negócios” tem o seu início, no sentido de como o conhecemos hoje, nos Estados Unidos, na década de 70, com a denominação de Business Ethics (BE), num contexto de contracultura apoiado no questionar e na reflexão das práticas empresariais, nomeadamente no que respeitava aos seus impactos ambientais e a um convite desmesurado ao consumismo. Para compreendermos melhor esta emergência, existem três pontos essenciais a ter em conta:
1. A BE não é uma proposta moral concreta (ou seja, não induz a um determinado modo de vida) para a gestão das organizações mas sim uma reflexão racional ética aplicada que respeita a pluralidade moral dos indivíduos dentro dos limites da empresa. De maneira alguma poderá a BE apresentar-se como um estandarte da reconquista de uma moral única. Pelo contrário, deverá ter em atenção os diversos contextos empresariais existentes, assentes numa ética mínima que assuma, de forma séria, o pluralismo das opções morais.
2. A BE é uma ética aplicada e centrada em questões concretas e práticas e não em especulações abstractas. E é de relçar que a união entre teoria e prática é imprescindível quando se aborda e implementa uma estratégia ética para qualquer organização. A BE não é uma mera aplicação de princípios abstractos “descobertos” por uma mente “iluminada” que depois são impostos à realidade concreta da empresa. A BE implica a integração da perspectiva indutiva e dedutiva, a integração de pensadores e empresários, do normativo e do empírico e da ética e do negócio.
3. A BE articula as três esferas imprescindíveis de toda a ética profissional: individual (dimensão micro), organizativa e sistema de mercado (macro). A dimensão macro deve superar a tentação de legitimar o sistema como a divisão entre o ético e económico. A esfera organizativa, que deve ser a principal, deve ter em linha de conta não só a diversidade das práticas empresariais, como também outras organizações não empresariais (como sindicatos, associações de consumidores, etc) para não reduzir a sua legitimação ao tipo de empresa mais adequado às suas intenções. A dimensão micro deverá realizar uma reflexão ética das relações e actuações individuais, a par dos valores pessoais e profissionais dos colaboradores da empresa.
Estas três perspectivas têm de se articular mantendo-se, contudo, o enfoque na esfera organizacional para que esta não se dissolva no indivíduo nem se deixe absorver pelo sistema.
Em suma, a BE terá de integrar, de forma inter-relacionada, quatro dimensões e responsabilidades da empresa
· A responsabilidade económica: que a empresa produza bens e serviços de forma eficaz e rentável, mas que vá mais além dos meros benefícios de lucro
· A responsabilidade legal: a empresa deverá cumprir as leis dentro do contexto do pacto social, mas que vá mais além dos requisitos legais
· A responsabilidade social (ética dos mínimos): a empresa deverá actuar tendo em conta a partilha de determinados valores
· A responsabilidade discricionária (ética dos máximos): a empresa deverá comprometer-se com acções que beneficiem a sociedade
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Etica no contexto empresarial
A Ética no contexto empresarial
A ética empresarial poderá ser definida genericamente como o ramo da ética que “se relaciona com a categorização valorativa1dos comportamentos, decisões ou acções dos indivíduos que trabalham nas organizações”.Ético será, na mesma definição, todo o “comportamento, decisão ou acção que esteja alinhado com as normas ou padrões da sociedade em que se insere”(Carroll, 1989)
Para Walton, a ética empresarial distingue-se pela inclusão nos critérios valorativos das acções, de aspectos como as expectativas sociais, o tipo ou estilo de competição empresarial, os conteúdos das mensagens publicitárias, o nível de responsabilidade social da empresa, a importância dada ao consumidor ou o estilo de comunicação com o exterior (Walton, 1977). Mercier, por seu lado, defende ser a ética uma disciplina transversal à humanidade que, por isso mesmo, também poderá ser enquadrada em termos da empresa, tocando todos os domínios da gestão (Mercier, 2003).
Esta reflexão é paradigmática da posição que defende a existência de uma ética dos negócios e da empresa, fenómeno indissociável da condição moral do Homem e deste como principal agente das organizações: se o ser humano é portador histórico de um conceito e de uma prática moral, essa sua prática estender-se-á às suas obras e manifestações, entre as quais as empresas. Em cenário empresarial, a moral de um só indivíduo será transformada em possibilidade individual de comportamento ético; da conjugação de todos os indivíduos, em interacção com o contexto da organização, resultará a possibilidade empresarial de comportamento ético.
Havendo a aceitação de uma ética empresarial, cumpre identificar os diferentes estados éticos existentes no panorama empresarial. Partindo do modelo de desenvolvimento moral, construído por Lawrence Kohlberg, Reidenbach e Robin (1991) estabeleceram cinco níveis na escala de desenvolvimento ético de uma empresa:
Empresa Amoral – não existe qualquer tipo de preocupação ética, estabelecendo-se o limite da acção conforme os custos das diferentes opções;
Empresa Legalista – as preocupações a nível ético já são existentes, contudo limitadas à observação da lei;
Empresa Responsável – alguma preocupação ética, reflectida na adopção de práticas externas como o mecenato cultural, social e ambiental ou de políticas internas como a construção de creches ou a atribuição de horários especiais para apoio social;
Empresa Eticamente Emergente – consciencialização da importância da ética nos negócios e adopção de uma postura ética em termos operacionais, o que é geralmente traduzido pela sua formalização em códigos ou manuais de procedimentos éticos;
Empresa Eticamente Desenvolvida – a ética é adoptada como a única forma de estar e agir no mundo empresarial, sendo a actividade das empresa neste nível totalmente regida por princípios éticos.
Os dois últimos níveis revelam uma maior maturidade ética e implicam uma aceitação do problema ético como um fenómeno que transcende o plano pessoal, estendendo-se até ao plano internacional: os indivíduos nestas organizações agem de acordo com padrões éticos a nível pessoal, transportando esses hábitos para o nível organizacional ao mesmo tempo que procuram impor regras de comportamento ético também ao nível da indústria, conjugando adicionalmente as suas acções corporativas com os interesses da sociedade em geral e com os padrões éticos por si adoptados, independentemente da cultura e dos hábitos dos interlocutores, no caso internacional (Carroll, 1978).
A ética empresarial poderá ser definida genericamente como o ramo da ética que “se relaciona com a categorização valorativa1dos comportamentos, decisões ou acções dos indivíduos que trabalham nas organizações”.Ético será, na mesma definição, todo o “comportamento, decisão ou acção que esteja alinhado com as normas ou padrões da sociedade em que se insere”(Carroll, 1989)
Para Walton, a ética empresarial distingue-se pela inclusão nos critérios valorativos das acções, de aspectos como as expectativas sociais, o tipo ou estilo de competição empresarial, os conteúdos das mensagens publicitárias, o nível de responsabilidade social da empresa, a importância dada ao consumidor ou o estilo de comunicação com o exterior (Walton, 1977). Mercier, por seu lado, defende ser a ética uma disciplina transversal à humanidade que, por isso mesmo, também poderá ser enquadrada em termos da empresa, tocando todos os domínios da gestão (Mercier, 2003).
Esta reflexão é paradigmática da posição que defende a existência de uma ética dos negócios e da empresa, fenómeno indissociável da condição moral do Homem e deste como principal agente das organizações: se o ser humano é portador histórico de um conceito e de uma prática moral, essa sua prática estender-se-á às suas obras e manifestações, entre as quais as empresas. Em cenário empresarial, a moral de um só indivíduo será transformada em possibilidade individual de comportamento ético; da conjugação de todos os indivíduos, em interacção com o contexto da organização, resultará a possibilidade empresarial de comportamento ético.
Havendo a aceitação de uma ética empresarial, cumpre identificar os diferentes estados éticos existentes no panorama empresarial. Partindo do modelo de desenvolvimento moral, construído por Lawrence Kohlberg, Reidenbach e Robin (1991) estabeleceram cinco níveis na escala de desenvolvimento ético de uma empresa:
Empresa Amoral – não existe qualquer tipo de preocupação ética, estabelecendo-se o limite da acção conforme os custos das diferentes opções;
Empresa Legalista – as preocupações a nível ético já são existentes, contudo limitadas à observação da lei;
Empresa Responsável – alguma preocupação ética, reflectida na adopção de práticas externas como o mecenato cultural, social e ambiental ou de políticas internas como a construção de creches ou a atribuição de horários especiais para apoio social;
Empresa Eticamente Emergente – consciencialização da importância da ética nos negócios e adopção de uma postura ética em termos operacionais, o que é geralmente traduzido pela sua formalização em códigos ou manuais de procedimentos éticos;
Empresa Eticamente Desenvolvida – a ética é adoptada como a única forma de estar e agir no mundo empresarial, sendo a actividade das empresa neste nível totalmente regida por princípios éticos.
Os dois últimos níveis revelam uma maior maturidade ética e implicam uma aceitação do problema ético como um fenómeno que transcende o plano pessoal, estendendo-se até ao plano internacional: os indivíduos nestas organizações agem de acordo com padrões éticos a nível pessoal, transportando esses hábitos para o nível organizacional ao mesmo tempo que procuram impor regras de comportamento ético também ao nível da indústria, conjugando adicionalmente as suas acções corporativas com os interesses da sociedade em geral e com os padrões éticos por si adoptados, independentemente da cultura e dos hábitos dos interlocutores, no caso internacional (Carroll, 1978).
Ser ético na empresa
A Ética Empresarial
“Ser ético é fazer algo que me beneficie e que, no mínimo, não prejudique o próximo”.
Longe vai o tempo em que as empresas apenas eram orientadas para o lucro, tentando maximizá-lo sem restrições e em que a sua eficiência produtiva se avaliava somente em função do volume de riqueza que conseguissem acumular.
Nos últimos anos alterou-se profundamente a visão citada anteriormente, passando as empresas, primeiramente, por uma fase de compromisso ético directamente relacionado com o cumprimento da lei, não simplesmente para evitar a imposição de alguma sanção, mas também como um dever.
Actualmente a ética empresarial evoluiu, baseando-se na definição de regras e princípios genericamente aceites no mundo dos negócios. As empresas tornaram-se mais conscientes das suas actividades e das suas responsabilidades, adoptando posturas que visam maximizar os lucros sem prejudicar os restantes agentes económicos e reforçando a ideia de que as empresas possam contribuir positivamente para a sociedade e, nomeadamente, para todos os seus stakeholders.
Em suma, a ética empresarial fornece linhas mestras para um comportamento adequado tanto em termos de formulação estratégica como para as suas operações diárias. Uma abordagem ética é cada vez mais necessária tanto para o sucesso empresarial como para a imagem positiva de uma empresa. No seguimento das pressões exercidas pelos consumidores que clamam por práticas de negócio eticamente responsáveis, são muitas as organizações que estão a optar por fazer um compromisso público através da formulação de códigos de conduta e práticas responsáveis. E, ao se comprometerem, são obrigadas a traduzir em acções os seus conceitos de responsabilização pessoal e empresarial.
A ética na vida das empresas tem de ser compreendida, vivida e difundida em dois níveis:
Como uma reflexão crítica das estratégias e tácticas de uma organização em termos do contexto moral e do sistema de valores da sociedade que a circunda
Como uma reflexão crítica do comportamento interno e da cultura de uma organização e do relacionamento entre os valores dos seus colaboradores relativamente ao sistema de valores dessa mesma organização.
A ética como elemento crucial para a edificação dos relacionamentos humanos
O pensamento subjacente a uma empresa é representado pelos seus princípios. Os princípios éticos reflectem os valores da empresa, determinados a partir do contexto de valores dos seus stakeholders e da sociedade em que está inserida.
Gerar lucro não significa, simplesmente, fazer dinheiro a curto prazo, mas sim e de uma forma crescente, estabelecer relacionamentos sustentáveis com a sociedade para assegurar o retorno a longo prazo.
Cada empresa é feita de pessoas, depende de pessoas e serve pessoas e a ética deve constituir um elemento crucial na edificação dos relacionamentos humanos. Ao estabelecer valores claros e princípios para o negócio, cada decisão tomada pela empresa pode (e deve) estar alinhada com os seus propósitos estratégicos.
Princípios éticos na tomada de decisão
A ética empresarial pode ser definida como o estudo e avaliação do processo de tomada de decisão de acordo com conceitos morais e de bom senso. A ética organizacional tanto pode incluir questões práticas e bem definidas como a obrigação de uma empresa ser honesta para com os seus clientes como assuntos socialmente mais latos e filosóficos, como a responsabilidade de preservar o ambiente e proteger os direitos dos seus empregados.
Muitos conflitos éticos derivam dos interesses divergentes dos accionistas das empresas relativamente aos seus trabalhadores, clientes e comunidade envolvente.
Os gestores têm de ser capazes de encontrar um equilíbrio entre o idealismo e o pragmatismo – ou seja, a necessidade de produzir um lucro razoável para os seus accionistas a partir de práticas de negócio honestas, segurança no local de trabalho, sem esquecer questões de dimensão mais ampla como o ambiente e a sociedade.
Os dilemas éticos nos negócios têm vindo a adquirir uma complexidade crescente devido à natureza global e diversificada de empresas de grande dimensão a par das crescentes regulamentações governamentais que definem os limites do comportamento criminoso.
Por exemplo, são muitas as multinacionais que operam em países nos quais o suborno, o assédio sexual, a discriminação racial e a ausência de preocupações ambientais não são consideradas ilegais, mas sim práticas comuns.
Nestes casos, a empresa terá de decidir se se mantém fiel aos seus princípios éticos ou se se limita a ajustar-se às regras locais para maximizar os seus lucros.
Como os crimes organizacionais podem ter um preço demasiado elevado, tanto para a sociedade como para as próprias empresas, muitas organizações e associações comerciais estabeleceram códigos de ética para as empresas, gestores e empregados.
“Ser ético é fazer algo que me beneficie e que, no mínimo, não prejudique o próximo”.
Longe vai o tempo em que as empresas apenas eram orientadas para o lucro, tentando maximizá-lo sem restrições e em que a sua eficiência produtiva se avaliava somente em função do volume de riqueza que conseguissem acumular.
Nos últimos anos alterou-se profundamente a visão citada anteriormente, passando as empresas, primeiramente, por uma fase de compromisso ético directamente relacionado com o cumprimento da lei, não simplesmente para evitar a imposição de alguma sanção, mas também como um dever.
Actualmente a ética empresarial evoluiu, baseando-se na definição de regras e princípios genericamente aceites no mundo dos negócios. As empresas tornaram-se mais conscientes das suas actividades e das suas responsabilidades, adoptando posturas que visam maximizar os lucros sem prejudicar os restantes agentes económicos e reforçando a ideia de que as empresas possam contribuir positivamente para a sociedade e, nomeadamente, para todos os seus stakeholders.
Em suma, a ética empresarial fornece linhas mestras para um comportamento adequado tanto em termos de formulação estratégica como para as suas operações diárias. Uma abordagem ética é cada vez mais necessária tanto para o sucesso empresarial como para a imagem positiva de uma empresa. No seguimento das pressões exercidas pelos consumidores que clamam por práticas de negócio eticamente responsáveis, são muitas as organizações que estão a optar por fazer um compromisso público através da formulação de códigos de conduta e práticas responsáveis. E, ao se comprometerem, são obrigadas a traduzir em acções os seus conceitos de responsabilização pessoal e empresarial.
A ética na vida das empresas tem de ser compreendida, vivida e difundida em dois níveis:
Como uma reflexão crítica das estratégias e tácticas de uma organização em termos do contexto moral e do sistema de valores da sociedade que a circunda
Como uma reflexão crítica do comportamento interno e da cultura de uma organização e do relacionamento entre os valores dos seus colaboradores relativamente ao sistema de valores dessa mesma organização.
A ética como elemento crucial para a edificação dos relacionamentos humanos
O pensamento subjacente a uma empresa é representado pelos seus princípios. Os princípios éticos reflectem os valores da empresa, determinados a partir do contexto de valores dos seus stakeholders e da sociedade em que está inserida.
Gerar lucro não significa, simplesmente, fazer dinheiro a curto prazo, mas sim e de uma forma crescente, estabelecer relacionamentos sustentáveis com a sociedade para assegurar o retorno a longo prazo.
Cada empresa é feita de pessoas, depende de pessoas e serve pessoas e a ética deve constituir um elemento crucial na edificação dos relacionamentos humanos. Ao estabelecer valores claros e princípios para o negócio, cada decisão tomada pela empresa pode (e deve) estar alinhada com os seus propósitos estratégicos.
Princípios éticos na tomada de decisão
A ética empresarial pode ser definida como o estudo e avaliação do processo de tomada de decisão de acordo com conceitos morais e de bom senso. A ética organizacional tanto pode incluir questões práticas e bem definidas como a obrigação de uma empresa ser honesta para com os seus clientes como assuntos socialmente mais latos e filosóficos, como a responsabilidade de preservar o ambiente e proteger os direitos dos seus empregados.
Muitos conflitos éticos derivam dos interesses divergentes dos accionistas das empresas relativamente aos seus trabalhadores, clientes e comunidade envolvente.
Os gestores têm de ser capazes de encontrar um equilíbrio entre o idealismo e o pragmatismo – ou seja, a necessidade de produzir um lucro razoável para os seus accionistas a partir de práticas de negócio honestas, segurança no local de trabalho, sem esquecer questões de dimensão mais ampla como o ambiente e a sociedade.
Os dilemas éticos nos negócios têm vindo a adquirir uma complexidade crescente devido à natureza global e diversificada de empresas de grande dimensão a par das crescentes regulamentações governamentais que definem os limites do comportamento criminoso.
Por exemplo, são muitas as multinacionais que operam em países nos quais o suborno, o assédio sexual, a discriminação racial e a ausência de preocupações ambientais não são consideradas ilegais, mas sim práticas comuns.
Nestes casos, a empresa terá de decidir se se mantém fiel aos seus princípios éticos ou se se limita a ajustar-se às regras locais para maximizar os seus lucros.
Como os crimes organizacionais podem ter um preço demasiado elevado, tanto para a sociedade como para as próprias empresas, muitas organizações e associações comerciais estabeleceram códigos de ética para as empresas, gestores e empregados.
Alumnos com + Módulo 1
O respeito pela vida humana
O respeito pela vida humana não se impõe apenas aos cristãos; a razão basta de per si para o exigir, baseando-se na análise daquilo que é e deve ser uma pessoa. Constituído por uma natureza racional, o homem é um sujeito pessoal, capaz de reflectir sobre si próprio e de decidir dos seus actos e, portanto, do seu próprio destino; é livre. É, por consequência, senhor de si; ou melhor dito — porque ele se perfaz a si mesmo no tempo — ele dispõe dos meios para se tornar tal e nisso está o seu dever. Imediatamente criada por Deus, a sua alma é espiritual e, por isso, imortal. Mais: ele está aberto para Deus e não encontrará senão n'Ele a sua plena realização. No entanto, ele vive na comunidade dos seus semelhantes e nutre-se da comunicação interpessoal com eles, no indispensável meio social. Em face da sociedade e dos outros homens, cada pessoa humana se possui a si mesma, possui a sua vida e os seus diversos bens, à maneira de direito; e isso exige-o da parte de todos os outros em relação a si uma estrita justiça.
9. Contudo, a vida temporal que se leva neste mundo não se identifica com a pessoa; esta tem como seu próprio um nível de vida mais profundo, que não poderá acabar. Sim, a vida temporal é um bem fundamental, aqui na terra condição de todos os demais bens; mas existem valores mais altos, pelos quais poderá ser lícito e mesmo até necessário expor-se ao perigo de a perder. Numa sociedade de pessoas, o bem comum é para cada uma delas uma finalidade que deve servir, à qual há-de saber subordinar o seu interesse particular. Mas esse bem comum não constitui o seu fim último; e, neste sentido, é a sociedade que está ao serviço da pessoa, porque esta não consumará o seu destino senão em Deus. Ela não pode ser subordinada definitivamente senão a Deus. Nunca se pode tratar um homem como simples meio de que porventura se dispusesse para alcançar um fim mais elevado.
10. Sobre os direitos e os deveres recíprocos da pessoa e da sociedade, compete à moral esclarecer as consciências e ao direito determinar e organizar os encargos. Ora existe um conjunto de direitos que a sociedade não tem que conceder, porque eles lhe são anteriores; mas que ela tem por dever preservar a fazer valer: tais são a maior parte daqueles que hoje em dia se denominam os « direitos do homem » e que a nossa época se gloria de ter formulado.
11. O primeiro direito de uma pessoa humana é a sua vida. Ela tem outros bens e alguns deles são mais preciosos; mas este — da vida — é fundamental, condição de todos os demais. Por isso, deve ele, mais do que qualquer outro, ser protegido. Não compete à sociedade, nem compete à autoridade pública, seja qual for a sua forma, reconhecer este direito a alguns somente e não a outros: toda a discriminação aqui é iníqua, quer se fundamente na raça, quer no sexo, quer na cor, quer, enfim, na religião. Não é o reconhecimento por outrem que constitui este direito: ele precede tal reconhecimento; mais: ele exige ser reconhecido e é estritamente injusto recusar reconhecê-lo.
12. Uma discriminação fundada sobre os diversos períodos da vida não será pois mais justificável do que outra qualquer. O direito à vida permanece na sua inteireza num velhinho, mesmo que este se ache muito debilitado; permanece num doente incurável, este não o perdeu. Não é menos legítimo numa criança que acaba de nascer do que num homem feito. Na realidade, o respeito pela vida humana impõe-se desde o momento em que começou o processo da geração. Desde quando o óvulo foi fecundado, encontra-se inaugurada uma vida, que não é nem a do pai, nem a da mãe, mas a de um novo ser humano, que se desenvolve por si mesmo. Ele não virá jamais a tornar-se humano, se o não for desde logo.
13. A esta evidência de sempre (absolutamente independente das discussões acerca do momento da animação),[19] a ciência genética moderna traz preciosas confirmações. Ela demonstrou, com efeito, que desde o primeiro instante se encontra traçado o programa daquilo que virá a ser este novo vivente: um homem, este homem indivíduo com as suas notas características já bem determinadas. A partir da fecundação, começou a aventura de uma vida humana, na qual cada uma das suas capacidades requer tempo, mesmo um tempo bastante longo, para eclodir e para se achar em condições de agir. O mínimo que se pode dizer é que a ciência actual, no seu estado mais evoluído, não dá apoio algum substancial aos defensores do aborto. De resto, não pertence às ciências biológicas dar um juízo decisivo sobre questões propriamente filosóficas e morais, como são a do momento em que se constitui a pessoa humana e a da legitimidade do aborto. Ora, sob o ponto de vista moral, isto é certo mesmo que porventura subsistisse uma dúvida concernente ao facto de o fruto da concepção ser já uma pessoa humana: é objectivamente um pecado grave ousar correr o risco de um homicídio. « É já um homem aquele que o virá a ser » [20] .
O ERRO DA EUTANÁSIA
Tenho impressão que a eutanásia — a idéia, senão a prática — está lentamente a ganhar aceitação na nossa sociedade. Os cínicos podem atribuir esse fato a uma tendência crescente de desvalorização da vida humana, mas não creio que esta seja a razão central. Bem publicitadas, histórias como a de Karen Quinlan, provocam em nós profundos sentimentos de compaixão. Pensamos para nós próprios, "Ela e a sua família ficariam melhor se ela morresse". É uma conseqüência simples desta resposta humana, verificar que se for melhor para uma pessoa (ou pessoas) que esteja morta, então deve ser correto matá-la.[1] Ainda que respeite a compaixão que conduz a esta conclusão, acredito que é errada. Pretendo mostrar que a eutanásia é errada. É intrinsecamente errada, mas também o é considerada a partir do interesse próprio e dos efeitos práticos.
Antes de apresentar os meus argumentos a favor desta posição, devo definir "eutanásia". Um aspecto essencial da eutanásia é implicar tirar uma vida humana, a própria ou a de outrem. Também a pessoa a quem é tirada a vida deve ser alguém que acredita estar a sofrer de alguma doença ou mal do qual se suspeita não ser razoavelmente possível esperar recuperação. Finalmente, a ação deve ser deliberada e intencional. Assim, eutanásia significa tirar intencionalmente a vida a alguém presumivelmente sem qualquer esperança de recuperação. Independentemente de se tratar da própria vida ou não, tirá-la significa igualmente eutanásia.
É importante ser claro acerca do caráter intencional ou deliberado do matar. Se, por engano, é dada uma injeção com uma droga errada a uma pessoa sem esperança e provoca a sua morte, será matar alguém por engano mas não será eutanásia. A morte não pode ser o resultado de um acidente. Além do mais, se é dada uma injeção com uma droga a uma pessoa, mas que se crê ser necessária para tratar a sua doença ou melhorar a sua condição e se morre, então não é nem morte por engano nem eutanásia. A intenção era melhorar a saúde da pessoa, não matá-la. Do mesmo modo, quando a condição de um doente é tal que não é razoável esperar que procedimentos médicos e tratamentos o possam salvar, uma falha na implantação destes procedimentos ou tratamentos não é eutanásia. Se uma pessoa morre, será como resultado dos seus males ou doença e não porque falhou o tratamento.
O ato de interromper o tratamento de uma pessoa depois de compreender que esta tem poucas possibilidades de beneficiar dele, tem sido caracterizado por alguns como "eutanásia passiva". Esta afirmação é enganadora e errada.[2] Nestes casos, a pessoa envolvida não é morta (primeiro aspecto essencial da eutanásia), nem a sua morte resulta da recusa de um tratamento adicional (terceiro aspecto essencial da eutanásia). O objetivo pode ser o de poupar a pessoa a um sofrimento adicional e injustificável, salvá-la de manipulações indignas, e evitar aumento o fardo financeiro e emocional à família. Quando compro um lápis é para usá-lo para escrever, não para aumentar o produto interno bruto (PIB). Esta pode ser uma conseqüência inesperada da minha ação, mas não é o seu objetivo. O mesmo se passa com a interrupção do tratamento de um doente terminal. Quis a sua morte tanto quanto quis reduzir a despesa pública ao não usar os medicamentos. Trata-se de morte não intencional, pelo que a chamada "eutanásia passiva" não é de todo eutanásia.
1. O argumento da natureza
Todo o ser humano tem uma inclinação natural para continuar a viver. Os nossos reflexos e respostas habilitam-nos para lutar contra atacantes, afugentar animais selvagens e afastar-nos do trajeto dos caminhões. No nosso dia-a-dia exercitamos a cautela e o cuidado necessários para nos protegermos. Os nossos corpos estão similarmente estruturados para sobreviver até ao nível molecular. Quanto nos cortamos, os nossos vasos capilares fecham-se, o nosso sangue coagula, e produz-se plasma para iniciar o processo de cura da ferida. Quando somos invadidos por bactérias, produzem-se anticorpos para combater os organismos invasores, e os seus restos são expulsos por células especializadas em trabalho de limpeza.
A eutanásia violenta o objetivo natural da sobrevivência. Significa literalmente agir contra a natureza, porque todos os seus processos estão inclinados para a sobrevivência. A eutanásia derrota estes mecanismos subtis de uma forma que, num caso particular, a doença ou os ferimentos não o fazem.
É possível, embora não seja necessário, apelar à religião revelada para sustentar esta conexão.[3] O ser humano enquanto tutor do seu corpo age contra Deus, que é o seu real proprietário, quando termina com a sua vida. Também viola os mandamentos divinos que declaram a santidade da vida e impedem que dela possamos dispor sem uma razão verdadeiramente irresistível. Mas porque este apelo persuade apenas aqueles que estão preparados para aceitar que a religião tenha acesso a verdades reveladas, não seguirei esta linha argumentativa.
É suficiente, acredito, reconhecer que a organização do corpo humano e os padrões das nossas respostas comportamentais mostram que a manutenção da vida é um objetivo natural. Podemos, por isso, e com base apenas na razão, reconhecer que a eutanásia nos coloca contra a nossa própria natureza.[4] Além de que, ao fazê-lo, a prática da eutanásia violenta a nossa dignidade, já que esta decorre da procura dos nossos fins. Considerando que um dos nossos objectivos é a sobrevivência, e que, no entanto, agimos para o eliminar, então é a nossa própria dignidade que sofre. Ao contrário dos animais, temos consciência através da razão da nossa natureza e dos nossos fins. A eutanásia implica agir como se esta dupla natureza — inclinação para a sobrevivência e consciência dela como um fim — não existisse. Logo, nega a nossa natureza humana básica e requer que nos olhemos a nós e aos outros como algo menos do que totalmente humanos.
2. O argumento do interesse próprio
Os argumentos supra referidos são, acredito, suficientes para mostrar que a eutanásia é intrinsecamente errada. Mas há razões para a considerar errada quando avaliada de acordo com parâmetros que não os da razão. Uma vez que a morte é final e irreversível, a eutanásia implica que as nossas ações ocorram contra os nossos interesses se a praticarmos ou permitirmos que outros a pratiquem em nós.
A medicina atual possui elevados padrões de excelência e um recorde provado de sucesso, mas não possui um conhecimento perfeito e completo. É possível um diagnóstico errado, do mesmo modo que é possível um prognóstico errado. Como conseqüência, pode dar-se o caso de acreditarmos que estamos a morrer de uma doença, quando na realidade e de fato, podemos não estar. Podemos pensar não haver hipóteses possíveis de recuperação, quando na realidade e de fato, até podem ser bastante boas. Nestas circunstâncias, se a eutanásia fosse permitida, morreríamos desnecessariamente. A morte é final e a hipótese de erro é demasiado grande para aprovar a prática da eutanásia.
De igual modo, é sempre possível que um procedimento experimental ainda não testado permita a recuperação. Devemos manter esta opção em aberto, o que a eutanásia impede. Além de que acontecem em muitos casos remissões espontâneas. Sem razão aparente, um doente simplesmente recupera quando todos à sua volta, incluindo os seus médicos, esperavam que morresse. A eutanásia apenas garantiria as suas expectativas não deixando lugar para recuperações "miraculosas" que acontecem frequentemente.
Finalmente, sabendo que podemos dispor da nossa vida em qualquer altura (ou pedir a outros que o façam) pode levar-nos facilmente a desistir. A vontade de viver é forte em todos nós, mas pode ser enfraquecida pela dor, pelo sofrimento e por sentimentos de impotência. Se permitirmos que sejamos mortos num período difícil, não teremos mais hipóteses de reconsiderar. Recuperar de uma doença grave implica que a possamos combater, e tudo o que possa enfraquecer a nossa determinação sugerindo que não há saídas fáceis é, em última análise, contrário aos nossos interesses. Podemos ainda estar inclinados a aceitar a eutanásia por causa das nossas preocupações com os outros. Se encaramos a nossa doença e o nosso sofrimento como um fardo financeiro e emocional para a nossa família, podemos sentir que morrer tornará as suas vidas melhores.[5] A simples presença desta possibilidade pode impedir-nos de sobreviver quando tal é possível.
3. O argumento dos efeitos práticos
Os médicos e as enfermeiras estão, na sua grande maioria, empenhados em salvar vidas. Uma vida perdida é, para eles, quase um fracasso pessoal, um insulto às suas capacidades e ao seu conhecimento. A eutanásia como prática pode alterar isto e exercer uma influência corruptora sobre os médicos e as enfermeiras, de tal forma que pode levar a que não se empenhem o suficiente. Podem decidir que o doente "estaria melhor morto" e desencadear o processo necessário para que tal acontecesse. Esta atitude pode conduzir a uma triagem de tal forma que tratariam apenas os casos menos graves. O resultado seria um decréscimo global da qualidade dos cuidados médicos prestados.
Finalmente, a eutanásia enquanto política seria como um declive ardiloso. Um doente aparentemente sem esperança poderia ser autorizado a terminar com a sua própria vida. Depois seria permitido a outros que o fizessem se não fosse capaz. O juízo dos outros passaria a ser o fator dominante. Nesta altura, a eutanásia já não seria pessoal e voluntária, uma vez que outros estariam a agir "em nome" do doente de uma forma que considerassem adequada. Este fato poderia conduzir a que se achassem no direito de agir em nome de outros doentes sem a sua permissão. Como se vê, então, um pequeno passo separa a eutanásia voluntária (auto-inflingida ou autorizada), da eutanásia administrada a um doente que não deu o seu consentimento, e da eutanásia involuntária conduzida como parte de uma política social.[6] Ainda recentemente psiquiatras e sociólogos defenderam que definimos como "doença mental" aquelas formas de comportamento que desaprovamos.[7] Isto permite que fechemos todos aqueles que exibam este tipo de comportamentos. A categoria do "doente sem esperança" fornece-nos a possibilidade de um abuso ainda maior. Justificado por uma política social, daria à sociedade e aos seus representantes, a autoridade necessária para eliminar todos aqueles que pudessem ser considerados demasiado "doentes" para funcionar normalmente. Os perigos da eutanásia são demasiado grandes para que possamos correr o risco de a aprovar sob qualquer forma. O primeiro passo escorregadio poderia conduzir a uma queda séria e aparentemente inofensiva.
Espero que tenha sido bem sucedido na tentativa de mostrar que a benevolência que nos inclina a aprovar a eutanásia é despropositada. A eutanásia é intrinsecamente errada porque viola a natureza e a dignidade dos seres humanos. Mas mesmo aqueles que estão convencidos disto podem ser persuadidos de que os perigos pessoais e sociais potenciais e inerentes à eutanásia são suficientes para proibir a sua aprovação seja como prática individual, seja como política social.
O sofrimento é sem dúvida algo terrível e temos um dever claro de confortar aqueles que precisam e atenuar o seu sofrimento tanto quanto nos for possível. Mas o sofrimento é um aspecto natural da vida humana que não deve ser ignorado. Podemos procurar para nós e para os outros uma morte mais fácil, como defende Arthur Dyck.[8] Mas a eutanásia não é, contudo, apenas uma morte fácil. É uma morte errada. A eutanásia não é apenas morrer. É assassínio.
9. Contudo, a vida temporal que se leva neste mundo não se identifica com a pessoa; esta tem como seu próprio um nível de vida mais profundo, que não poderá acabar. Sim, a vida temporal é um bem fundamental, aqui na terra condição de todos os demais bens; mas existem valores mais altos, pelos quais poderá ser lícito e mesmo até necessário expor-se ao perigo de a perder. Numa sociedade de pessoas, o bem comum é para cada uma delas uma finalidade que deve servir, à qual há-de saber subordinar o seu interesse particular. Mas esse bem comum não constitui o seu fim último; e, neste sentido, é a sociedade que está ao serviço da pessoa, porque esta não consumará o seu destino senão em Deus. Ela não pode ser subordinada definitivamente senão a Deus. Nunca se pode tratar um homem como simples meio de que porventura se dispusesse para alcançar um fim mais elevado.
10. Sobre os direitos e os deveres recíprocos da pessoa e da sociedade, compete à moral esclarecer as consciências e ao direito determinar e organizar os encargos. Ora existe um conjunto de direitos que a sociedade não tem que conceder, porque eles lhe são anteriores; mas que ela tem por dever preservar a fazer valer: tais são a maior parte daqueles que hoje em dia se denominam os « direitos do homem » e que a nossa época se gloria de ter formulado.
11. O primeiro direito de uma pessoa humana é a sua vida. Ela tem outros bens e alguns deles são mais preciosos; mas este — da vida — é fundamental, condição de todos os demais. Por isso, deve ele, mais do que qualquer outro, ser protegido. Não compete à sociedade, nem compete à autoridade pública, seja qual for a sua forma, reconhecer este direito a alguns somente e não a outros: toda a discriminação aqui é iníqua, quer se fundamente na raça, quer no sexo, quer na cor, quer, enfim, na religião. Não é o reconhecimento por outrem que constitui este direito: ele precede tal reconhecimento; mais: ele exige ser reconhecido e é estritamente injusto recusar reconhecê-lo.
12. Uma discriminação fundada sobre os diversos períodos da vida não será pois mais justificável do que outra qualquer. O direito à vida permanece na sua inteireza num velhinho, mesmo que este se ache muito debilitado; permanece num doente incurável, este não o perdeu. Não é menos legítimo numa criança que acaba de nascer do que num homem feito. Na realidade, o respeito pela vida humana impõe-se desde o momento em que começou o processo da geração. Desde quando o óvulo foi fecundado, encontra-se inaugurada uma vida, que não é nem a do pai, nem a da mãe, mas a de um novo ser humano, que se desenvolve por si mesmo. Ele não virá jamais a tornar-se humano, se o não for desde logo.
13. A esta evidência de sempre (absolutamente independente das discussões acerca do momento da animação),[19] a ciência genética moderna traz preciosas confirmações. Ela demonstrou, com efeito, que desde o primeiro instante se encontra traçado o programa daquilo que virá a ser este novo vivente: um homem, este homem indivíduo com as suas notas características já bem determinadas. A partir da fecundação, começou a aventura de uma vida humana, na qual cada uma das suas capacidades requer tempo, mesmo um tempo bastante longo, para eclodir e para se achar em condições de agir. O mínimo que se pode dizer é que a ciência actual, no seu estado mais evoluído, não dá apoio algum substancial aos defensores do aborto. De resto, não pertence às ciências biológicas dar um juízo decisivo sobre questões propriamente filosóficas e morais, como são a do momento em que se constitui a pessoa humana e a da legitimidade do aborto. Ora, sob o ponto de vista moral, isto é certo mesmo que porventura subsistisse uma dúvida concernente ao facto de o fruto da concepção ser já uma pessoa humana: é objectivamente um pecado grave ousar correr o risco de um homicídio. « É já um homem aquele que o virá a ser » [20] .
O ERRO DA EUTANÁSIA
Tenho impressão que a eutanásia — a idéia, senão a prática — está lentamente a ganhar aceitação na nossa sociedade. Os cínicos podem atribuir esse fato a uma tendência crescente de desvalorização da vida humana, mas não creio que esta seja a razão central. Bem publicitadas, histórias como a de Karen Quinlan, provocam em nós profundos sentimentos de compaixão. Pensamos para nós próprios, "Ela e a sua família ficariam melhor se ela morresse". É uma conseqüência simples desta resposta humana, verificar que se for melhor para uma pessoa (ou pessoas) que esteja morta, então deve ser correto matá-la.[1] Ainda que respeite a compaixão que conduz a esta conclusão, acredito que é errada. Pretendo mostrar que a eutanásia é errada. É intrinsecamente errada, mas também o é considerada a partir do interesse próprio e dos efeitos práticos.
Antes de apresentar os meus argumentos a favor desta posição, devo definir "eutanásia". Um aspecto essencial da eutanásia é implicar tirar uma vida humana, a própria ou a de outrem. Também a pessoa a quem é tirada a vida deve ser alguém que acredita estar a sofrer de alguma doença ou mal do qual se suspeita não ser razoavelmente possível esperar recuperação. Finalmente, a ação deve ser deliberada e intencional. Assim, eutanásia significa tirar intencionalmente a vida a alguém presumivelmente sem qualquer esperança de recuperação. Independentemente de se tratar da própria vida ou não, tirá-la significa igualmente eutanásia.
É importante ser claro acerca do caráter intencional ou deliberado do matar. Se, por engano, é dada uma injeção com uma droga errada a uma pessoa sem esperança e provoca a sua morte, será matar alguém por engano mas não será eutanásia. A morte não pode ser o resultado de um acidente. Além do mais, se é dada uma injeção com uma droga a uma pessoa, mas que se crê ser necessária para tratar a sua doença ou melhorar a sua condição e se morre, então não é nem morte por engano nem eutanásia. A intenção era melhorar a saúde da pessoa, não matá-la. Do mesmo modo, quando a condição de um doente é tal que não é razoável esperar que procedimentos médicos e tratamentos o possam salvar, uma falha na implantação destes procedimentos ou tratamentos não é eutanásia. Se uma pessoa morre, será como resultado dos seus males ou doença e não porque falhou o tratamento.
O ato de interromper o tratamento de uma pessoa depois de compreender que esta tem poucas possibilidades de beneficiar dele, tem sido caracterizado por alguns como "eutanásia passiva". Esta afirmação é enganadora e errada.[2] Nestes casos, a pessoa envolvida não é morta (primeiro aspecto essencial da eutanásia), nem a sua morte resulta da recusa de um tratamento adicional (terceiro aspecto essencial da eutanásia). O objetivo pode ser o de poupar a pessoa a um sofrimento adicional e injustificável, salvá-la de manipulações indignas, e evitar aumento o fardo financeiro e emocional à família. Quando compro um lápis é para usá-lo para escrever, não para aumentar o produto interno bruto (PIB). Esta pode ser uma conseqüência inesperada da minha ação, mas não é o seu objetivo. O mesmo se passa com a interrupção do tratamento de um doente terminal. Quis a sua morte tanto quanto quis reduzir a despesa pública ao não usar os medicamentos. Trata-se de morte não intencional, pelo que a chamada "eutanásia passiva" não é de todo eutanásia.
1. O argumento da natureza
Todo o ser humano tem uma inclinação natural para continuar a viver. Os nossos reflexos e respostas habilitam-nos para lutar contra atacantes, afugentar animais selvagens e afastar-nos do trajeto dos caminhões. No nosso dia-a-dia exercitamos a cautela e o cuidado necessários para nos protegermos. Os nossos corpos estão similarmente estruturados para sobreviver até ao nível molecular. Quanto nos cortamos, os nossos vasos capilares fecham-se, o nosso sangue coagula, e produz-se plasma para iniciar o processo de cura da ferida. Quando somos invadidos por bactérias, produzem-se anticorpos para combater os organismos invasores, e os seus restos são expulsos por células especializadas em trabalho de limpeza.
A eutanásia violenta o objetivo natural da sobrevivência. Significa literalmente agir contra a natureza, porque todos os seus processos estão inclinados para a sobrevivência. A eutanásia derrota estes mecanismos subtis de uma forma que, num caso particular, a doença ou os ferimentos não o fazem.
É possível, embora não seja necessário, apelar à religião revelada para sustentar esta conexão.[3] O ser humano enquanto tutor do seu corpo age contra Deus, que é o seu real proprietário, quando termina com a sua vida. Também viola os mandamentos divinos que declaram a santidade da vida e impedem que dela possamos dispor sem uma razão verdadeiramente irresistível. Mas porque este apelo persuade apenas aqueles que estão preparados para aceitar que a religião tenha acesso a verdades reveladas, não seguirei esta linha argumentativa.
É suficiente, acredito, reconhecer que a organização do corpo humano e os padrões das nossas respostas comportamentais mostram que a manutenção da vida é um objetivo natural. Podemos, por isso, e com base apenas na razão, reconhecer que a eutanásia nos coloca contra a nossa própria natureza.[4] Além de que, ao fazê-lo, a prática da eutanásia violenta a nossa dignidade, já que esta decorre da procura dos nossos fins. Considerando que um dos nossos objectivos é a sobrevivência, e que, no entanto, agimos para o eliminar, então é a nossa própria dignidade que sofre. Ao contrário dos animais, temos consciência através da razão da nossa natureza e dos nossos fins. A eutanásia implica agir como se esta dupla natureza — inclinação para a sobrevivência e consciência dela como um fim — não existisse. Logo, nega a nossa natureza humana básica e requer que nos olhemos a nós e aos outros como algo menos do que totalmente humanos.
2. O argumento do interesse próprio
Os argumentos supra referidos são, acredito, suficientes para mostrar que a eutanásia é intrinsecamente errada. Mas há razões para a considerar errada quando avaliada de acordo com parâmetros que não os da razão. Uma vez que a morte é final e irreversível, a eutanásia implica que as nossas ações ocorram contra os nossos interesses se a praticarmos ou permitirmos que outros a pratiquem em nós.
A medicina atual possui elevados padrões de excelência e um recorde provado de sucesso, mas não possui um conhecimento perfeito e completo. É possível um diagnóstico errado, do mesmo modo que é possível um prognóstico errado. Como conseqüência, pode dar-se o caso de acreditarmos que estamos a morrer de uma doença, quando na realidade e de fato, podemos não estar. Podemos pensar não haver hipóteses possíveis de recuperação, quando na realidade e de fato, até podem ser bastante boas. Nestas circunstâncias, se a eutanásia fosse permitida, morreríamos desnecessariamente. A morte é final e a hipótese de erro é demasiado grande para aprovar a prática da eutanásia.
De igual modo, é sempre possível que um procedimento experimental ainda não testado permita a recuperação. Devemos manter esta opção em aberto, o que a eutanásia impede. Além de que acontecem em muitos casos remissões espontâneas. Sem razão aparente, um doente simplesmente recupera quando todos à sua volta, incluindo os seus médicos, esperavam que morresse. A eutanásia apenas garantiria as suas expectativas não deixando lugar para recuperações "miraculosas" que acontecem frequentemente.
Finalmente, sabendo que podemos dispor da nossa vida em qualquer altura (ou pedir a outros que o façam) pode levar-nos facilmente a desistir. A vontade de viver é forte em todos nós, mas pode ser enfraquecida pela dor, pelo sofrimento e por sentimentos de impotência. Se permitirmos que sejamos mortos num período difícil, não teremos mais hipóteses de reconsiderar. Recuperar de uma doença grave implica que a possamos combater, e tudo o que possa enfraquecer a nossa determinação sugerindo que não há saídas fáceis é, em última análise, contrário aos nossos interesses. Podemos ainda estar inclinados a aceitar a eutanásia por causa das nossas preocupações com os outros. Se encaramos a nossa doença e o nosso sofrimento como um fardo financeiro e emocional para a nossa família, podemos sentir que morrer tornará as suas vidas melhores.[5] A simples presença desta possibilidade pode impedir-nos de sobreviver quando tal é possível.
3. O argumento dos efeitos práticos
Os médicos e as enfermeiras estão, na sua grande maioria, empenhados em salvar vidas. Uma vida perdida é, para eles, quase um fracasso pessoal, um insulto às suas capacidades e ao seu conhecimento. A eutanásia como prática pode alterar isto e exercer uma influência corruptora sobre os médicos e as enfermeiras, de tal forma que pode levar a que não se empenhem o suficiente. Podem decidir que o doente "estaria melhor morto" e desencadear o processo necessário para que tal acontecesse. Esta atitude pode conduzir a uma triagem de tal forma que tratariam apenas os casos menos graves. O resultado seria um decréscimo global da qualidade dos cuidados médicos prestados.
Finalmente, a eutanásia enquanto política seria como um declive ardiloso. Um doente aparentemente sem esperança poderia ser autorizado a terminar com a sua própria vida. Depois seria permitido a outros que o fizessem se não fosse capaz. O juízo dos outros passaria a ser o fator dominante. Nesta altura, a eutanásia já não seria pessoal e voluntária, uma vez que outros estariam a agir "em nome" do doente de uma forma que considerassem adequada. Este fato poderia conduzir a que se achassem no direito de agir em nome de outros doentes sem a sua permissão. Como se vê, então, um pequeno passo separa a eutanásia voluntária (auto-inflingida ou autorizada), da eutanásia administrada a um doente que não deu o seu consentimento, e da eutanásia involuntária conduzida como parte de uma política social.[6] Ainda recentemente psiquiatras e sociólogos defenderam que definimos como "doença mental" aquelas formas de comportamento que desaprovamos.[7] Isto permite que fechemos todos aqueles que exibam este tipo de comportamentos. A categoria do "doente sem esperança" fornece-nos a possibilidade de um abuso ainda maior. Justificado por uma política social, daria à sociedade e aos seus representantes, a autoridade necessária para eliminar todos aqueles que pudessem ser considerados demasiado "doentes" para funcionar normalmente. Os perigos da eutanásia são demasiado grandes para que possamos correr o risco de a aprovar sob qualquer forma. O primeiro passo escorregadio poderia conduzir a uma queda séria e aparentemente inofensiva.
Espero que tenha sido bem sucedido na tentativa de mostrar que a benevolência que nos inclina a aprovar a eutanásia é despropositada. A eutanásia é intrinsecamente errada porque viola a natureza e a dignidade dos seres humanos. Mas mesmo aqueles que estão convencidos disto podem ser persuadidos de que os perigos pessoais e sociais potenciais e inerentes à eutanásia são suficientes para proibir a sua aprovação seja como prática individual, seja como política social.
O sofrimento é sem dúvida algo terrível e temos um dever claro de confortar aqueles que precisam e atenuar o seu sofrimento tanto quanto nos for possível. Mas o sofrimento é um aspecto natural da vida humana que não deve ser ignorado. Podemos procurar para nós e para os outros uma morte mais fácil, como defende Arthur Dyck.[8] Mas a eutanásia não é, contudo, apenas uma morte fácil. É uma morte errada. A eutanásia não é apenas morrer. É assassínio.
trabalho e virtudes humanas( valores)
trabalho e virtudes humanas
Em Busca de Sentido: Não procurem o sucesso. Quanto mais o procurarem e o transfomarem num alvo, mais vocês vão errar. Porque o sucesso, como a felcidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer, e só tem lugar como efeito colateral de uma dedicação pessoal a uma causa maior que a pessoa, ou como subproduto da rendição pessoal a outro ser.
E ainda, no mesmo prefácio da edição de 1984 de Em Busca de Sentido: Quero que vocês escutem o que sua consciência diz que devem fazer e coloquem-no em prática da melhor maneira posível. E então voces verão que a longo prazo - estou dizendo a longo prazo! - o sucesso vai perseguí-los, precisamente porque voces esqueceram de pensar nele.
Finalmente: Nós que vivemos nos campos de concentração podemos lembrar de homens que andavam pelos alojamentos confortando a outros, dando o seu último pedaço de pão. Eles devem ter sido poucos em número, mas ofereceram prova suficiente que tudo pode ser tirado do homem, menos uma coisa: a última das liberdades humanas - escolher sua atitude em qualquer circunstância, escolher o próprio caminho.
três categorias de valores:
1. Criativos – dar algo ao mundo, uma tarefa, uma
obra, um trabalho;
2. Vivenciais – receber algo do mundo, a expe-
riência do amor, por exemplo;
3. De atitude – posicionar-se diante de sofrimen-
tos inevitáveis.
A busca de sentido
O sentido do sofrimento
Diante das adversidades impostas, haverá o homem que dotar a vida
de sentido nas situações mais difíceis, onde o que importa é dar testemunho da
melhor e exclusiva potencialidade humana: transformar a tragédia, a doença, a
deficiência ou o fracasso em um triunfo pessoal, em um sucesso humano
(FRANKL, 2000). A vida cobra mais sentido quanto mais difícil se faz. Se a vida
tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá. Aflição e morte
fazem parte da vida como um todo (FRANKL, 1989). O sentido do sofrimento só
pode ser encontrado e dado por cada pessoa particularmente e dependerá da
atitude que a pessoa tomar. Se realizar os valores que lhe são oferecidos pela
situação sofrida e pelo seu pesado destino, ela encontrará dignidade em seu
sofrimento (FRANKL, 1978).
Para Frankl (2000, p. 57):
O homem não está autorizado a perguntar qual o sentido
da vida, senão que é a própria vida que lhe coloca
continuamente perguntas, as quais deve responder. E é
ele que responde ou que deve responder. Não responde
com palavras, senão com ações, com ações
responsáveis.
Diante das situações-limite impostas pela vida, o homem experimenta
a tensão ao ter que tomar iniciativas para responder ao sofrimento e para
desenvolver as capacidades que tem. Isto chega a ele como um desafio, uma
tarefa, uma responsabilidade. A ignorância, manipulação ou negação desta
realidade faz com que ele caia num vazio existencial, uma frustração que vem
da falta de sentido. A capacidade de buscar um sentido que ele tem que encontrar
por conta própria e, apesar das dificuldades, saber que há algo valioso na vida,
possibilita dar coerência e orientação a esta.
Frankl (1978, p. 241) diz que:
O homem não se destrói por sofrer, o homem se destrói
por sofrer sem sentido. Sofrer significa agir e significa
crescer. Significa igualmente amadurecer. O indivíduo
que se eleva acima de si mesmo avança para a
maturidade... e a maturidade pressupõe, todavia, que o
indivíduo tenha alcançado uma liberdade interior,
malgrado sua dependência exterior.
O desenvolvimento de condutas resilientes, ao invés de resignação,
leva o homem a uma mudança de si e, conseqüentemente, do contexto em que
está. A resiliência está em encontrar um sentido à vida em qualquer circunstância.
Valores
“Para além do sentido vinculado a uma situação irrepetível e única, há
ainda universais de sentido que se prendem à condition humaine enquanto tal, e
é a estas possibilidades gerais de sentido, que se chamam valores”, diz Frankl
(1989, p. 79). Os valores são, por definição, abstratos gerais de sentido, que nos
permite compreender o valioso da vida, independente da estreiteza das suas
circunstâncias. Os valores podem ser vivenciais, criativos e de atitude.
Valores vivenciais
Os valores vivenciais são os que se realizam na experiência vital ao
viver a vida plenamente. Está relacionado ao amor, ao que o indivíduo sente ou
recebe do mundo, experimentando algo ou encontrando alguém (FRANKL, 1989).
Para o indivíduo especial, a importância da família e de vínculos afetivos representa
os meios pelos quais se abrem as portas da aceitação para que ele possa viver
o que vida lhe oferece em plenitude. “O elemento básico de todo apoio e
necessidade humana e de toda resiliência é a confiança. No que se refere à
família, a melhor definição de tal elemento básico é relações de confiança e
amor”, destaca Grotberg (2004, p. 188).
A resiliência se constrói a partir de apoio externo definido em termos
de Eu tenho: pessoas em quem confio e me querem incondicionalmente, que
me impõem limites para que possa evitar perigos e problemas, que me mostram
por meio de sua conduta a maneira correta de proceder, que querem que eu
aprenda a desenvolver-me sozinho e que me ajudam quando estou enfermo, em
perigo ou quando necessito aprender. A família é, geralmente, a principal
responsável pelos cuidados do indivíduo especial. Em termos de resiliência,
toda a família sofre uma adversidade importante e deve aprender a enfrentá-la,
fortalecer-se e tornar-se mais competente. Quando a família encara o trabalho
que terá pela frente como um desafio, uma tarefa com sentido, conserva mais
sua saúde física e mental (GROTBERG, 2004).
Valores criativos
Os valores criativos referem-se à capacidade de criar condições
satisfatórias em qualquer situação. São atos de realização que dizem respeito
ao trabalho, ao que o indivíduo faz e que pode oferecer ao mundo (FRANKL,
1989). A criatividade é uma possibilidade de dar respostas originais à solução
de problemas e, neste aspecto, funciona junto com a resiliência, pois a
criatividade é o potencial que todo ser humano tem para transformar e inovar
sua realidade, gerar idéias ou novidades, criando ordem, beleza e finalidade
através do caos e da desordem. No indivíduo especial, podem-se mobilizar as
potencialidades criativas por meio da intensificação da ação cultural. Pelos canais
culturais, o ser humano pode ser capaz de atravessar bloqueios parciais de si
mesmo (CYRULNIK, 2002).
Valores de atitude
Os valores de atitude são aqueles que se realizam em cada instante
da vida e referem-se à forma com se age diante de situações-limites, oferecendo
a possibilidade de enriquecer a vida daquele que os vivencia. Uma existência,
por muito empobrecida que pareça, pode oferecer ainda uma ultima oportunidade
e decerto a maior para, apesar de tudo, realizar valores. Trata-se de atitudes,
tais como, a valentia no sofrimento ou a dignidade na ruína e no malogro. Refere-
se à capacidade de transformação, pois mesmo uma pessoa desamparada é
capaz de não se identificar com seu sofrimento, podendo erguer-se acima de si
mesma, crescer para além de si mesma e assim, mudar-se a si mesma,
transformando sua tragédia pessoal em triunfo (FRANKL, 1989).
Em Busca de Sentido: Não procurem o sucesso. Quanto mais o procurarem e o transfomarem num alvo, mais vocês vão errar. Porque o sucesso, como a felcidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer, e só tem lugar como efeito colateral de uma dedicação pessoal a uma causa maior que a pessoa, ou como subproduto da rendição pessoal a outro ser.
E ainda, no mesmo prefácio da edição de 1984 de Em Busca de Sentido: Quero que vocês escutem o que sua consciência diz que devem fazer e coloquem-no em prática da melhor maneira posível. E então voces verão que a longo prazo - estou dizendo a longo prazo! - o sucesso vai perseguí-los, precisamente porque voces esqueceram de pensar nele.
Finalmente: Nós que vivemos nos campos de concentração podemos lembrar de homens que andavam pelos alojamentos confortando a outros, dando o seu último pedaço de pão. Eles devem ter sido poucos em número, mas ofereceram prova suficiente que tudo pode ser tirado do homem, menos uma coisa: a última das liberdades humanas - escolher sua atitude em qualquer circunstância, escolher o próprio caminho.
três categorias de valores:
1. Criativos – dar algo ao mundo, uma tarefa, uma
obra, um trabalho;
2. Vivenciais – receber algo do mundo, a expe-
riência do amor, por exemplo;
3. De atitude – posicionar-se diante de sofrimen-
tos inevitáveis.
A busca de sentido
O sentido do sofrimento
Diante das adversidades impostas, haverá o homem que dotar a vida
de sentido nas situações mais difíceis, onde o que importa é dar testemunho da
melhor e exclusiva potencialidade humana: transformar a tragédia, a doença, a
deficiência ou o fracasso em um triunfo pessoal, em um sucesso humano
(FRANKL, 2000). A vida cobra mais sentido quanto mais difícil se faz. Se a vida
tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá. Aflição e morte
fazem parte da vida como um todo (FRANKL, 1989). O sentido do sofrimento só
pode ser encontrado e dado por cada pessoa particularmente e dependerá da
atitude que a pessoa tomar. Se realizar os valores que lhe são oferecidos pela
situação sofrida e pelo seu pesado destino, ela encontrará dignidade em seu
sofrimento (FRANKL, 1978).
Para Frankl (2000, p. 57):
O homem não está autorizado a perguntar qual o sentido
da vida, senão que é a própria vida que lhe coloca
continuamente perguntas, as quais deve responder. E é
ele que responde ou que deve responder. Não responde
com palavras, senão com ações, com ações
responsáveis.
Diante das situações-limite impostas pela vida, o homem experimenta
a tensão ao ter que tomar iniciativas para responder ao sofrimento e para
desenvolver as capacidades que tem. Isto chega a ele como um desafio, uma
tarefa, uma responsabilidade. A ignorância, manipulação ou negação desta
realidade faz com que ele caia num vazio existencial, uma frustração que vem
da falta de sentido. A capacidade de buscar um sentido que ele tem que encontrar
por conta própria e, apesar das dificuldades, saber que há algo valioso na vida,
possibilita dar coerência e orientação a esta.
Frankl (1978, p. 241) diz que:
O homem não se destrói por sofrer, o homem se destrói
por sofrer sem sentido. Sofrer significa agir e significa
crescer. Significa igualmente amadurecer. O indivíduo
que se eleva acima de si mesmo avança para a
maturidade... e a maturidade pressupõe, todavia, que o
indivíduo tenha alcançado uma liberdade interior,
malgrado sua dependência exterior.
O desenvolvimento de condutas resilientes, ao invés de resignação,
leva o homem a uma mudança de si e, conseqüentemente, do contexto em que
está. A resiliência está em encontrar um sentido à vida em qualquer circunstância.
Valores
“Para além do sentido vinculado a uma situação irrepetível e única, há
ainda universais de sentido que se prendem à condition humaine enquanto tal, e
é a estas possibilidades gerais de sentido, que se chamam valores”, diz Frankl
(1989, p. 79). Os valores são, por definição, abstratos gerais de sentido, que nos
permite compreender o valioso da vida, independente da estreiteza das suas
circunstâncias. Os valores podem ser vivenciais, criativos e de atitude.
Valores vivenciais
Os valores vivenciais são os que se realizam na experiência vital ao
viver a vida plenamente. Está relacionado ao amor, ao que o indivíduo sente ou
recebe do mundo, experimentando algo ou encontrando alguém (FRANKL, 1989).
Para o indivíduo especial, a importância da família e de vínculos afetivos representa
os meios pelos quais se abrem as portas da aceitação para que ele possa viver
o que vida lhe oferece em plenitude. “O elemento básico de todo apoio e
necessidade humana e de toda resiliência é a confiança. No que se refere à
família, a melhor definição de tal elemento básico é relações de confiança e
amor”, destaca Grotberg (2004, p. 188).
A resiliência se constrói a partir de apoio externo definido em termos
de Eu tenho: pessoas em quem confio e me querem incondicionalmente, que
me impõem limites para que possa evitar perigos e problemas, que me mostram
por meio de sua conduta a maneira correta de proceder, que querem que eu
aprenda a desenvolver-me sozinho e que me ajudam quando estou enfermo, em
perigo ou quando necessito aprender. A família é, geralmente, a principal
responsável pelos cuidados do indivíduo especial. Em termos de resiliência,
toda a família sofre uma adversidade importante e deve aprender a enfrentá-la,
fortalecer-se e tornar-se mais competente. Quando a família encara o trabalho
que terá pela frente como um desafio, uma tarefa com sentido, conserva mais
sua saúde física e mental (GROTBERG, 2004).
Valores criativos
Os valores criativos referem-se à capacidade de criar condições
satisfatórias em qualquer situação. São atos de realização que dizem respeito
ao trabalho, ao que o indivíduo faz e que pode oferecer ao mundo (FRANKL,
1989). A criatividade é uma possibilidade de dar respostas originais à solução
de problemas e, neste aspecto, funciona junto com a resiliência, pois a
criatividade é o potencial que todo ser humano tem para transformar e inovar
sua realidade, gerar idéias ou novidades, criando ordem, beleza e finalidade
através do caos e da desordem. No indivíduo especial, podem-se mobilizar as
potencialidades criativas por meio da intensificação da ação cultural. Pelos canais
culturais, o ser humano pode ser capaz de atravessar bloqueios parciais de si
mesmo (CYRULNIK, 2002).
Valores de atitude
Os valores de atitude são aqueles que se realizam em cada instante
da vida e referem-se à forma com se age diante de situações-limites, oferecendo
a possibilidade de enriquecer a vida daquele que os vivencia. Uma existência,
por muito empobrecida que pareça, pode oferecer ainda uma ultima oportunidade
e decerto a maior para, apesar de tudo, realizar valores. Trata-se de atitudes,
tais como, a valentia no sofrimento ou a dignidade na ruína e no malogro. Refere-
se à capacidade de transformação, pois mesmo uma pessoa desamparada é
capaz de não se identificar com seu sofrimento, podendo erguer-se acima de si
mesma, crescer para além de si mesma e assim, mudar-se a si mesma,
transformando sua tragédia pessoal em triunfo (FRANKL, 1989).
O TRABALHO COMO LUGAR DE VIDA

O TRABALHO COMO LUGAR DE VIDA
Acreditamos que o entusiasmo pelo trabalho, a energia, a capacidade operativa não nascem apenas de uma correspondência com a própria sensibilidade, da busca de uma atividade prazerosa, mas do reconhecimento de que é através de circunstâncias concretas que se joga todo o desejo e a possibilidade de realização da própria natureza humana.
Desta forma, o trabalho adquire seu pleno significado, deixando de ser apenas um “pedágio” a ser pago, assim como a ética deixa de ser algo que deve ser acrescentado ao homem, tornando-se conteúdo de sua consciência.
O trabalho como fonte de realização pessoal, de estímulo permanente para a ação, que molda a realidade e ao mesmo tempo expressa e constrói a pessoa humana, perde seu valor intrínseco e torna-se um meio para alcançar uma situação de bem estar.
O trabalho não é somente uma maneira de viver com dignidade, mas uma atividade cultural, o espaço onde pode ser expressa a originalidade pessoal, a criatividade, a iniciativa livre e o conhecimento de cada um. É um instrumento da participação na vida da comunidade.
Victor Frankl, caracteriza o trabalho como o modo do homem responder de forma original e ativa às circunstâncias concretas da vida tendo uma meta a ser atingida.
Quando esta meta está obscurecida, a tendência é a paralisia e poderíamos acrescentar, a luta pela recompensa material ou social.
É através do trabalho que o homem expressa seu caráter único, advindo daí o seu sentido e valor.
Na contramão da mentalidade dominante o autor afirma que a profissão em si não traz consigo a plena satisfação, não tem a capacidade de realizar o homem:
Não é, por conseguinte, um determinado tipo de profissão o que oferece ao homem a possibilidade de atingir a plenitude. Neste sentido, pode-se dizer que nenhuma profissão faz o homem feliz. A profissão, em si, não é ainda suficiente para tornar o homem insubstituível; o que a profissão faz é simplesmente dar-lhe a oportunidade para vir a sê-lo. (...) Só a partir do momento em que se move para além das fronteiras dos preceitos puramente profissionais, para além do que está ‘regulado’ pela profissão, — só a partir desse momento é que o médico, por exemplo, começa um trabalho verdadeiramente profissional, que só ele pode levar a cabo plenamente (Brandão:2000, 83).
Isto não menospreza o desejo de crescer profissionalmente, mas modifica substancialmente a quase “obsessão” dos jovens pela rápida ascensão profissional, pois o que realmente importa é o modo como o homem realiza sua tarefa, imprimindo a ela uma marca pessoal e insubstituível.
Ao entrarmos em diálogo com Luigi Giussani, a relação entre educação, trabalho e ética torna-se mais explícita.
Para o autor o trabalho é essencial na vida do homem inicialmente porque o homem conhece a si mesmo somente na ação e no trabalho. Além disto, é na esfera do trabalho que o homem se constitui, porque se empenha numa a tarefa, utiliza sua criatividade para solucionar problemas, dedica-se aos outros, enfim, torna-se protagonista de sua vida e gerador de obras.
Aqui se encontra o grande valor do trabalho como atitude diante do real: o estímulo para que a pessoa observe a si mesma, examine o significado pessoal e social de seu projeto, analise todas as variáveis envolvidas, aprenda a utilizá-las adequadamente, enfrente os desafios, reoriente sua ação tendo em tendo em vista um objetivo, enfim, que possa imprimir uma marca pessoal no mundo, através de sua ação.
Estando diante deste significado, sempre misterioso, o sacrifício, o sofrimento que o trabalho exige faz sentido, serve para alcançar a realização de si.
Assim fica evidente porque é necessário considerar o homem como pessoa e não apenas como recurso, “recurso humano” ou pior, como “capital humano” numa imagem “coisificante” (reificante). Também seria profundamente ambíguo encarar o trabalho humano usando o aspecto “espiritual” do trabalhador em sentido instrumental, isto é, apenas para aumentar o seu rendimento. Pelo contrário o homem é desejo de felicidade (Valentini:2004, 9)
Aqui aparece a outra face do trabalho: a colaboração e a solidariedade - trabalha-se cada vez mais com e para os outros, sendo esta uma ocasião de crescimento mútuo e geração de frutos para toda a sociedade.
A raiz da unidade não é “instrumental”, isto é meramente funcional à produção, mas intrínseca ao próprio ser humano. O trabalho em equipe, a colaboração, o fato de estar diante do outro com a capacidade de valorizar seus aspectos construtivos e redimensionando seus limites, isto quer dizer ver-ser e tratar-se como “seres espirituais”. (Valentini:2004, 9)
O trabalho, portanto, é um aspecto parcial da realidade que conduz ao todo, através do qual se afirma a razão pela qual se existe e deve ser o resultado de uma ação educativa porque reconduz o homem à razão última de seu agir.
Só assim o homem torna-s sujeito criador, idealizador e realizador de obras.
Acreditamos que o entusiasmo pelo trabalho, a energia, a capacidade operativa não nascem apenas de uma correspondência com a própria sensibilidade, da busca de uma atividade prazerosa, mas do reconhecimento de que é através de circunstâncias concretas que se joga todo o desejo e a possibilidade de realização da própria natureza humana.
Desta forma, o trabalho adquire seu pleno significado, deixando de ser apenas um “pedágio” a ser pago, assim como a ética deixa de ser algo que deve ser acrescentado ao homem, tornando-se conteúdo de sua consciência.
O trabalho como fonte de realização pessoal, de estímulo permanente para a ação, que molda a realidade e ao mesmo tempo expressa e constrói a pessoa humana, perde seu valor intrínseco e torna-se um meio para alcançar uma situação de bem estar.
O trabalho não é somente uma maneira de viver com dignidade, mas uma atividade cultural, o espaço onde pode ser expressa a originalidade pessoal, a criatividade, a iniciativa livre e o conhecimento de cada um. É um instrumento da participação na vida da comunidade.
Victor Frankl, caracteriza o trabalho como o modo do homem responder de forma original e ativa às circunstâncias concretas da vida tendo uma meta a ser atingida.
Quando esta meta está obscurecida, a tendência é a paralisia e poderíamos acrescentar, a luta pela recompensa material ou social.
É através do trabalho que o homem expressa seu caráter único, advindo daí o seu sentido e valor.
Na contramão da mentalidade dominante o autor afirma que a profissão em si não traz consigo a plena satisfação, não tem a capacidade de realizar o homem:
Não é, por conseguinte, um determinado tipo de profissão o que oferece ao homem a possibilidade de atingir a plenitude. Neste sentido, pode-se dizer que nenhuma profissão faz o homem feliz. A profissão, em si, não é ainda suficiente para tornar o homem insubstituível; o que a profissão faz é simplesmente dar-lhe a oportunidade para vir a sê-lo. (...) Só a partir do momento em que se move para além das fronteiras dos preceitos puramente profissionais, para além do que está ‘regulado’ pela profissão, — só a partir desse momento é que o médico, por exemplo, começa um trabalho verdadeiramente profissional, que só ele pode levar a cabo plenamente (Brandão:2000, 83).
Isto não menospreza o desejo de crescer profissionalmente, mas modifica substancialmente a quase “obsessão” dos jovens pela rápida ascensão profissional, pois o que realmente importa é o modo como o homem realiza sua tarefa, imprimindo a ela uma marca pessoal e insubstituível.
Ao entrarmos em diálogo com Luigi Giussani, a relação entre educação, trabalho e ética torna-se mais explícita.
Para o autor o trabalho é essencial na vida do homem inicialmente porque o homem conhece a si mesmo somente na ação e no trabalho. Além disto, é na esfera do trabalho que o homem se constitui, porque se empenha numa a tarefa, utiliza sua criatividade para solucionar problemas, dedica-se aos outros, enfim, torna-se protagonista de sua vida e gerador de obras.
Aqui se encontra o grande valor do trabalho como atitude diante do real: o estímulo para que a pessoa observe a si mesma, examine o significado pessoal e social de seu projeto, analise todas as variáveis envolvidas, aprenda a utilizá-las adequadamente, enfrente os desafios, reoriente sua ação tendo em tendo em vista um objetivo, enfim, que possa imprimir uma marca pessoal no mundo, através de sua ação.
Estando diante deste significado, sempre misterioso, o sacrifício, o sofrimento que o trabalho exige faz sentido, serve para alcançar a realização de si.
Assim fica evidente porque é necessário considerar o homem como pessoa e não apenas como recurso, “recurso humano” ou pior, como “capital humano” numa imagem “coisificante” (reificante). Também seria profundamente ambíguo encarar o trabalho humano usando o aspecto “espiritual” do trabalhador em sentido instrumental, isto é, apenas para aumentar o seu rendimento. Pelo contrário o homem é desejo de felicidade (Valentini:2004, 9)
Aqui aparece a outra face do trabalho: a colaboração e a solidariedade - trabalha-se cada vez mais com e para os outros, sendo esta uma ocasião de crescimento mútuo e geração de frutos para toda a sociedade.
A raiz da unidade não é “instrumental”, isto é meramente funcional à produção, mas intrínseca ao próprio ser humano. O trabalho em equipe, a colaboração, o fato de estar diante do outro com a capacidade de valorizar seus aspectos construtivos e redimensionando seus limites, isto quer dizer ver-ser e tratar-se como “seres espirituais”. (Valentini:2004, 9)
O trabalho, portanto, é um aspecto parcial da realidade que conduz ao todo, através do qual se afirma a razão pela qual se existe e deve ser o resultado de uma ação educativa porque reconduz o homem à razão última de seu agir.
Só assim o homem torna-s sujeito criador, idealizador e realizador de obras.
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